Valorização da coleta, inserção no processo de reciclagem e investimento são reivindicações dos catadores
No encerramento do evento, a expectativa é que Lula assine o Programa Nacional de Investimento na Reciclagem Popular

12ª edição da ExpoCatadores em São Paulo | Crédito: Caroline Oliveira/Brasil de Fato
Uma das principais reivindicações dos movimentos de catadores de lixo recicláveis é a valorização do trabalho e o direcionamento de investimentos para a categoria. Com o tema “Transição justa na cadeia de valores da reciclagem”, a abertura da 12ª edição da ExpoCatadores discutiu o reposicionamento estratégico da reciclagem no desenvolvimento circular brasileiro.
Segundo Fagner Jandrey, catador e integrante do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR) do Rio Grande do Sul – uma das organizações responsáveis pelo evento – defendeu a implementação do Programa Nacional de Investimento na Reciclagem Popular (Pronarep), que foi apresentado ao governo da então presidente Dilma Rousseff (PT) em 2013, a fim de complementar o Programa Pró-Catador.
“É necessário criar uma política pública de investimento direto nas cooperativas, associações, outras formas de organizações e nos catadores autônomos para que toda a população catadora, toda a nação catadora possa ter condições de acessar recursos públicos”, afirmou Jandrey durante a abertura do evento, que ocorre entre os dias 17 e 19 no Centro de Convenções do Anhembi, em São Paulo.
O Programa Pró-Catador foi criado em 2010 pelo presidente Lula (PT) com o objetivo de articular ações federais para fortalecer a organização produtiva dos catadores, melhorar as condições de trabalho e promover a inclusão social e econômica.
Em 2020, durante o governo de Jair Bolsonaro (PL), o programa foi descontinuado, o que levou à suspensão das políticas voltadas à categoria. Em 2023, já na gestão atual, a iniciativa foi relançada como Programa Diogo de Sant’Ana Pró-Catadoras e Catadores para a Reciclagem Popular. Os catadores, no entanto, acreditam que a implementação da política tem sido insuficiente para atender às demandas da categoria.
Uma das demandas, afirma o integrante gaúcho do MNCR, é superar a lógica de concorrência entre os catadores no acesso público e criar um programa de financiamento direto. “Precisa ter um financiamento para que esse um milhão de pessoas que sobrevivem da catação e que são motor da economia tenham condições de acessar recursos para superar essa situação de precariedade e a falta de estrutura, para mostrar que a gente, mesmo sem estrutura, já é capaz de fazer um bom serviço, imagina quando se tem financiamento”, afirma.
“Que os recursos públicos não sejam só através de editais com projetos que, muitas vezes, a grande maioria dos companheiros não conseguem acessar por não ter condições de fazer um projeto. Precisamos ter um programa estruturante, uma política pública de financiamento direto, onde os catadores e catadoras cheguem ao seu banco público, apresentem a sua situação e possam estar acessando recurso público para se organizar, para se estruturar e para avançar nessa proposta de projeto político e produtivo, que é a reciclagem popular”, acrescenta Jandrey.
Na mesma linha, Neli Medeiros, catadora e integrante do MNCR de Minas Gerais, afirma que o reconhecimento do trabalho da categoria é essencial para garantir melhores condições de atuação e maior estrutura produtiva. Segundo a liderança, embora os catadores sejam responsáveis por mais de 90% do material reciclado no país, ficam com apenas cerca de 10% do valor gerado.
“A gente precisa que haja reconhecimento do nosso trabalho para que a gente consiga fazer um trabalho com mais estrutura, lembrando que nós coletamos mais de 90% do material reciclado e que, no final, a gente recebe apenas 10% de todo esse material que a gente coleta. Então os grandes continuam lá em cima ganhando e nós, aqui embaixo, fazendo todo o trabalho com toda luta, com toda dificuldade”, defende.
Para Medeiros, a chamada reciclagem popular busca romper com essa lógica ao ampliar o papel dos catadores para além da coleta seletiva. A proposta envolve assumir etapas como a triagem, a industrialização e o tratamento de resíduos secos e orgânicos, com o objetivo de distribuir melhor a riqueza gerada. Ela destaca que, apesar de existirem galpões estruturados em algumas regiões, ainda é necessário avançar na capacitação, na organização e na modernização desses espaços para que os trabalhadores consigam atuar em toda a cadeia produtiva.
Nesse processo, a tecnologia não se restringe a máquinas sofisticadas, mas inclui o conjunto de práticas já realizadas pelos catadores, como a coleta, a separação, a organização do material e o diálogo com os municípios. A implementação da coleta seletiva de resíduos secos e úmidos, seguida da triagem e da comercialização nos galpões, é apontada como fundamental para agregar valor aos materiais e ampliar a renda da categoria. “A gente precisa sair só da coleta seletiva da reciclagem e partir para o orgânico para que a gente de fato ganhar dinheiro, mas a gente precisa estruturar nossos galpões, formar e capacitar para que a gente dê conta de todo esse processo”, diz.
Medeiros também ressalta o valor social da atividade. “Para nós o lixo não existe. A gente costuma dizer que o lixo para nós é luxo, que é de onde a gente tira o nosso ganha-pão, o nosso sustento. É com esse recurso que a gente paga as escolas dos nossos filhos. E hoje aqui entre nós, catadores e catadoras, nós temos muitos filhos fazendo faculdade com esse dinheiro que a gente tira da reciclagem”, conclui.
Kombosa Seletiva em restaurantes e condomínios
Da cidade de São Paulo, Valdirene Ruiz Lopes, idealizadora do Kombosa Seletiva, reitera a necessidade de mais investimentos do poder público para a coleta seletiva. Criado em 2014, o projeto começou na região central do município e hoje atende a condomínios, restaurantes e outros imóveis comerciais do centro até bairros mais afastados.

Valdirene Ruiz Lopes, idealizadora do Kombosa Seletiva | Crédito: Caroline Oliveira/Brasil de Fato
“Estamos atuando na cidade de São Paulo, especificamente na região central, com trabalho de prestação de serviço de coleta seletiva e com o projeto da lei de incentivo à reciclagem para a estruturação e ampliação desse trabalho. Também atuamos na constituição do instituto para trazer esses catadores que trabalham em processo autônomo na cidade de São Paulo para um processo organizacional de autogestão realizada por eles mesmos”, afirma Lopes, cujo trabalho coleta de 30 a 40 toneladas de recicláveis por semana apenas em São Paulo.
“São toneladas porque hoje a Kombosa Seletiva expandiu a coleta além do centro, além da região central onde ela nasceu, que foi na Baixada do Glicério e onde ainda está. Atendemos muitos condomínios, restaurantes e colégios. Então são várias quantidades de resíduos. Colégio é um tipo de resíduo, condomínio é outro. São várias fontes e são muitas toneladas”, acrescenta.
Lopes explica que os resíduos coletados são destinados às cooperativas, onde os catadores realizam a separação e a comercialização dos materiais, o que garante muitas vezes a principal fonte de renda desses trabalhadores. Segundo Valdirene, foi a partir desse trabalho que conseguiu conquistar estabilidade financeira, financiar a casa própria e assegurar a formação dos filhos, incluindo o mais velho, que concluirá a faculdade de Educação Física no próximo ano.
Plástico Pet no lugar do bambu
Além de catadores e catadoras, o evento reuniu trabalhadores que atuam diretamente na reciclagem de materiais descartáveis. José Geraldo Santos é dono do projeto Arte Tekinho, que transforma plásticos em itens de decoração. “Eu comecei a fazer esse trabalho quando eu era criança com taquara [uma espécie de bambu] e, quando eu cheguei aqui em São Paulo, transferi a técnica de taquara para o fio de arquear, que as grandes indústrias jogavam muito fora. E hoje eu tento passar para as cooperativas, para os catadores e dar continuidade a esse trabalho”, detalha Santos, também conhecido como Artesão Tekinho.

José Geraldo Santos, dono do projeto Arte Tekinho, e sua esposa Creusa Máxima dos Santos, idealizadora do Bonecas Máximas.
Entre os plásticos utilizados por Santos, estão o PET, muito usado em garrafas de bebidas, embalagens e fibras têxteis, e materiais descartados por lojas de imóveis. “Eu reaproveito. Inclusive, quando eu comecei a fazer, eu pegava muito lá na 25 de Março e no Brás. Aí, como meu trabalho foi encontrado por um empresário que fabricava fita, ele procurou conhecer o artesão e começou a me dar auxílio com as fitas que seriam jogadas fora. Eu comecei a reaproveitar com a ajuda dele”, diz.
Hoje, além de toda a sua renda, o artesanato por meio da reciclagem levou Santos para fora do país para exposições e para a sala de aula. “Hoje o meu trabalho já roda o mundo todo. Para mim foi muito importante porque eu já dei muitos cursos de recuperação na comunidade, nas cooperativas e nas igrejas. Todos eles falaram para mim que surgiu resultado como terapia ocupacional”, afirma.
No encerramento da ExpoCatadores 2025, será realizada a tradicional Ceia de Natal dos Catadores, na próxima sexta-feira (19), com a presença do presidente Lula. A expectativa é que o petista assine o Programa Nacional de Investimento na Reciclagem Popular (Pronarep) com as atualizações reivindicadas pelos trabalhadores.
Editado por: Luís Indriunas







