A 12ª edição da ExpoCatadores, realizada nesta sexta-feira (19), no Centro de Convenções do Anhembi, em São Paulo, entrou para a história como um marco na luta das catadoras e catadores do Brasil, especialmente daqueles que atuam nas periferias e favelas do país. O evento reuniu mais de 3.500 trabalhadores da reciclagem, representantes de cerca de 600 cooperativas e associações de todas as regiões, e foi palco do anúncio de um pacote de medidas do Governo Federal voltadas à valorização da reciclagem popular.

Durante a programação, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou três decretos e lançou o PRONAREP (Programa Nacional de Investimento na Reciclagem Popular), iniciativa que estabelece diretrizes no Plano Plurianual para a reciclagem popular, institui a Política Nacional de Circularidade de Bens Móveis e cria o Sistema Nacional de Economia Solidária. As medidas representam um avanço histórico para trabalhadores que, há décadas, sustentam a política ambiental brasileira a partir das ruas, dos lixões, das cooperativas e dos territórios periféricos.

O PRONAREP é considerado o eixo central do pacote e tem como objetivo modernizar galpões, garantir equipamentos, ampliar a coleta seletiva e oferecer formação técnica às cooperativas. A proposta busca transformar o trabalho duro das catadoras e catadores em melhores condições de renda e de vida. Com a Caixa Econômica Federal como uma das principais operadoras e apoio de instituições como a Fundação Banco do Brasil, os investimentos anunciados chegam a R$ 143 milhões, destinados a cooperativas espalhadas por todo o Brasil, muitas delas localizadas em favelas e periferias urbanas.

Outro anúncio que gerou expectativa foi o lançamento do Cataki.gov, aplicativo nacional de coleta seletiva que promete aproximar a população dos catadores, encurtando a distância entre quem descarta e quem transforma resíduos em sustento. A inclusão da categoria no programa Minha Casa, Minha Vida para Catadores também foi celebrada como um passo importante rumo à moradia digna, uma demanda histórica das trabalhadoras e trabalhadores da reciclagem que vivem em situação de vulnerabilidade social.

Antes da cerimônia oficial, o presidente percorreu os estandes da feira e dialogou diretamente com catadoras e catadores, ouvindo relatos de vida e reafirmando a necessidade de políticas públicas construídas a partir da realidade dos territórios. Para muitos presentes, o gesto simbolizou reconhecimento a uma categoria que sempre esteve à margem das decisões, apesar de seu papel essencial na preservação ambiental.

Apesar do clima de esperança, lideranças do setor alertaram para a necessidade de que as medidas saiam do papel. Vagner Maydana, catador de resíduos e presidente da Associação ACASMAR, do Rio Grande do Sul, destacou a importância da implementação efetiva das políticas nos municípios. “Esse pacote é uma grande conquista para nós, mas ele só vai mudar de verdade a vida dos catadores se for colocado em prática. Nossa preocupação é que essas políticas cheguem às cooperativas lá na ponta, nas periferias, onde a vida acontece”, afirmou.

 

Comunicação popular fortalece narrativas das periferias

A ExpoCatadores 2025 também foi marcada pela forte presença da comunicação popular. A cobertura do evento contou com comunicadores articulados pelo Território Mídias Brasil (TMB), em parceria com a Fundação Banco do Brasil, que trouxeram olhares periféricos para narrar o maior encontro mundial de catadoras e catadores.

Entre os comunicadores, esteve Gilsimara Cardoso, do Jornal Atualize, da Ilha de Itaparica, na Bahia. Para ela, a participação no evento representou um passo importante na democratização da informação. “Estar aqui dividindo espaço com a grande mídia representa inclusão. Não volto para o território como cheguei. Retorno cheia de responsabilidades e experiências para compartilhar com a comunidade e com os comunicadores populares”, afirmou.

A cobertura audiovisual foi articulada por Maycom Mota, diretor de comunicação da Dois Neguin Filmes, da Zona Sul de São Paulo. Segundo ele, ocupar espaços historicamente negados às periferias também é parte da luta por direitos. “Poder trabalhar ao lado de parceiros da quebrada, com essa proposta de gerar renda para comunicadoras e comunicadores populares, é potente. Esse espaço também é nosso”, destacou.

Outro olhar fundamental foi o de Bruno Capão, comunicador e catador, convidado pelo TMB para relatar o evento a partir da vivência de quem atua diariamente na reciclagem. Durante a ExpoCatadores, Bruno encontrou o presidente da República e saiu do encontro com novas perspectivas. “Sinto que tenho a responsabilidade de olhar por muitos que estão começando na reciclagem. Quero passar o que aprendi e fortalecer o caminho da luta por dignidade”, disse.

A presença da comunicação popular na ExpoCatadores reforça que contar essas histórias a partir das favelas e periferias também é uma forma de transformar realidades, garantindo visibilidade a quem sustenta, todos os dias, a economia solidária e o cuidado com o futuro do planeta.