Há muito material para processar, e esse volume só cresce

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Empresas da Índia estão intensificando seus investimentos em reciclagem de minerais críticos, ao mesmo tempo que aguardam os resultados de um programa de 15 bilhões de rúpias (US$ 166 milhões) do governo indiano para o setor. Espera-se que o programa reduza a dependência do país em relação às importações de insumos essenciais para tecnologias verdes.

O Programa de Incentivo à Reciclagem de Minerais Críticos concede um subsídio de 20% para investimentos e incentivos baseados em desempenho para empresas que apostarem em tecnologia avançada.

O objetivo é criar um fornecimento doméstico de lítio, cobalto, níquel e outros insumos essenciais para veículos elétricos, armazenamento de energia e tecnologias renováveis.

As inscrições para o programa foram abertas em outubro e permanecerão até 1º de abril. Autoridades afirmam que esta é a primeira fase operacional da Missão Nacional de Minerais Críticos. O lançamento complementa outras peças da arquitetura de segurança de recursos da Índia, incluindo projetos de exploração mineral e parcerias minerais no exterior.

Atualmente, grande parte do lixo eletrônico da Índia acaba em mercados informais de sucata, cujas operações prejudicam a saúde dos trabalhadores e desperdiçam recursos. Ao mesmo tempo, o governo busca reduzir a dependência da China para esses minerais, principalmente devido às disputas diplomáticas entre os dois países.

“A Missão Nacional de Minerais Críticos é um passo na direção certa para garantir que a Índia se torne autossuficiente no setor de minerais críticos e não dependa da China ou da geopolítica”, disse Nitin Gupta, cofundador da Attero Recycling, empresa que se candidatou ao programa de reciclagem.

Uma recente revisão do Ministério de Minas confirmou que o primeiro grupo de empresas foi aprovado para participar do programa, com avaliações iniciais de projetos já em andamento em Gujarat e Uttar Pradesh.

As projeções do governo sugerem que o plano de reciclagem poderá ajudar a desenvolver uma capacidade de 270 mil toneladas por ano e recuperar cerca de 40 mil toneladas de minerais críticos anualmente, quando estiver em plena operação. As autoridades esperam que isso catalise até 80 bilhões de rupias em investimentos privados e crie cerca de 70 mil empregos.

Diversas empresas consolidadas no setor de reciclagem e materiais para baterias na Índia se posicionaram para se beneficiar assim que os incentivos começarem a ser liberados. Entre elas está a Lohum Cleantech, uma das maiores empresas de reciclagem de baterias e materiais da Índia, que afirmou que os incentivos governamentais podem quase dobrar sua capacidade atual de reciclagem de 25 mil toneladas.

“O programa nos permite escalar muito mais rapidamente e aumentar a capacidade em baterias de íon-lítio, lixo eletrônico, conversores catalíticos e ímãs”, disse Pranati Kohli, chefe de relações públicas da empresa. “Ao aproveitar o apoio do governo por meio da Missão Nacional de Minerais Críticos, pretendemos atingir os padrões globais e fortalecer a segurança mineral da Índia.”

A empresa segue um modelo integrado de reutilização e reciclagem, reaproveitando baterias de veículos elétricos usadas — inclusive por meio de uma parceria de segunda vida com a MG Motor India — antes de finalmente extrair metais para reutilização em novas células.

A Attero Recycling, por sua vez, está expandindo sua capacidade de reciclagem de baterias de íon-lítio de 16.500 toneladas para 300 mil toneladas nos próximos cinco anos, com novas instalações previstas para entrar em operação em Roorkee, Pune, Bangalor, Jaipur e Faridabad. A empresa afirma que sua tecnologia patenteada permite extrair com eficiência terras raras de alta pureza e recuperar materiais como lítio, cobalto e níquel de baterias em fim de vida útil, bem como a “massa negra” de metais valiosos produzida pela trituração e fragmentação dessas baterias.

“A Índia pode alcançar a autossuficiência em minerais críticos muito mais rapidamente por meio da mineração urbana”, disse Gupta. “Já temos os recursos enterrados em nossos aterros sanitários.”

A Attero já havia anunciado um investimento de 1 bilhão de rúpias para ampliar sua capacidade de reciclagem de terras raras e materiais críticos, mesmo antes da abertura das inscrições. Essa expansão deverá elevar a capacidade de algumas centenas de toneladas para cerca de 30 mil toneladas anualmente até junho de 2027.

Da mesma forma, a Gravita India, mais conhecida pela reciclagem de baterias de chumbo-ácido, também está expandindo para a recuperação de íon-lítio e cobre. A empresa afirmou que começou a explorar parcerias e projetos-piloto para avaliar os requisitos tecnológicos para a reciclagem de minerais críticos.

Há muito material para processar, e esse volume só cresce. A Índia gerou mais de 1,7 milhão de toneladas de lixo eletrônico no ano encerrado em março de 2024, um salto de 70% sobre o 1 milhão de toneladas no ano encerrado em março de 2020, de acordo com o Ministério da Habitação e Assuntos Urbanos.

Nos mercados de sucata de Mayapuri e Seelampur, em Nova Déli, os desmontadores ainda derretem placas de circuito impresso em chamas abertas para extrair cobre ou ouro, expondo os trabalhadores a vapores tóxicos.

“Coletamos a maior parte dos celulares e laptops descartados da cidade”, disse Nizaam Ahmad, que passou décadas desmontando lixo eletrônico em Seelampur. “Os comerciantes levam as peças valiosas para grandes fábricas, mas nunca vemos equipamentos de segurança ou registro oficial.”

Analistas alertam que, a menos que as empresas formais de reciclagem desenvolvam parcerias de compartilhamento de suprimentos com os catadores informais, os benefícios do novo programa podem não alcançar a maioria das pessoas que realmente lidam com eletrônicos descartados. Especialistas afirmam que a integração dessas pessoas por meio de treinamento, cooperativas ou sistemas estruturados de recompra será crucial para garantir que a transição seja inclusiva, e não exploratória.

“A coleta continua sendo um grande gargalo para a reciclagem de minerais críticos na Índia, especialmente no caso do lixo eletrônico, onde mais de 90% é gerenciado pelo setor informal”, disse Kohli, da Lohum.

“Mais apoio, como uma taxa de 5% de GST (Imposto sobre Bens e Serviços) sobre sucata de baterias e resíduos contendo minerais críticos, fortalecerá o ecossistema e ajudará as empresas formais de reciclagem a integrar o fornecimento em larga escala.”

O gerenciamento da poluição é outro desafio — os processos hidrometalúrgicos e pirometalúrgicos utilizam ácidos fortes e geram efluentes que devem ser tratados com cuidado.

“A reciclagem precisa ser limpa para ser confiável”, disse Sumitra Jaiswal, advogada ambiental de Nova Déli. “Caso contrário, corremos o risco de transferir a poluição de áreas de mineração para zonas industriais.”